A Quaresma é um período litúrgico que nos conduz ao centro do mistério cristão: a celebração da Páscoa. Durante quarenta dias, a Igreja nos convida a percorrer um caminho de trasformação, sustentado pela oração, pelo jejum e pela prática da caridade.
O número quarenta tem um significado profundo. Ele recorda os quarenta anos vividos por Israel no deserto e os quarenta dias em que Cristo jejuou antes de iniciar sua missão pública. Todos os anos, pelos quarenta dias antes da pascoa, a Igreja une-se ao mistério de Jesus no deserto. Assim, a Quaresma nos insere nessa experiência espiritual: atravessar um tempo de provação para que, purificados, possamos participar plenamente da alegria pascal.
Mais do que uma tradição, a Quaresma é um chamado à transformação concreta. O jejum nos ensina a desapegar, a oração nos aproxima de Deus, e a esmola nos revela que a fé autêntica se manifesta na caridade. Ao renunciarmos a pequenos desejos e comodidades, aprendemos a nos desprender das ilusões do mundo e, pouco a pouco, a morrer para o pecado e renascer para uma vida nova. Esse caminho nos direciona ao essencial: o amor de Deus, que nos dá a vida e nos chama à santidade.
A Quaresma é um período central no calendário litúrgico, inserido no ciclo pascal como preparação para a Páscoa. Inicia na Quarta-feira de Cinzas e vai até a Missa da Ceia do Senhor, na Quinta-feira Santa, que abre o Tríduo Pascal.
Durante esse tempo, os fiéis são chamados a viver mais intensamente a fé por meio da penitência, da oração e da caridade. Os cinco domingos da Quaresma marcam uma caminhada espiritual progressiva, conduzindo os cristãos a uma maior intimidade com Deus e à celebração da ressurreição de Cristo.
Em 2026, a Quaresma terá início em 18 de Fevereiro e terminará em 2 de Abril, antes da celebração da Quinta-feira Santa.
Oração, Jejum e Esmola
A Igreja nos recorda que a Quaresma não é apenas um tempo de reflexão, mas um período de ação concreta na vida espiritual. Para isso, ela nos propõe três práticas essenciais: oração, jejum e esmola. Esses pilares são o caminho para uma verdadeira conversão, ajudando-nos a voltar o coração para Deus e para os irmãos.
Oração: intimidade com Deus
Na Quaresma, somos chamados a intensificar nossa vida de oração, pois é nela que encontramos força para perseverar.
Jesus nos dá o exemplo: “Ele se retirava para lugares desertos e ali orava” (Lc 5,16).
A oração sincera abre o coração para ouvir a voz de Deus e conformar nossa vontade à Dele. O Rosário, a Via-Sacra, a meditação da Palavra e a Eucaristia são meios concretos para crescer nesse diálogo com o Senhor.
Jejum: disciplina e renúncia
O jejum quaresmal vai além da privação alimentar: é um exercício espiritual que nos ensina a dominar os desejos e dar espaço a Deus.
No deserto, Jesus jejuou quarenta dias e respondeu ao tentador: “Nem só de pão vive o homem, mas de toda palavra que sai da boca de Deus” (Mt 4,4).
Ao renunciar a alimentos, distrações ou hábitos, aprendemos a purificar o coração e a fortalecer a alma contra as tentações.
Esmola: caridade e partilha
A esmola é expressão concreta da fé que se traduz em amor ao próximo.
Jesus nos ensina: “Tudo o que fizestes a um destes meus irmãos mais pequeninos, a mim mesmo que o fizestes” (Mt 25,40).
A caridade não se limita a dar bens materiais, mas também tempo, atenção e gestos de misericórdia. Visitar os doentes, perdoar, ouvir com paciência, tudo isso é esmola que agrada a Deus.
Assim, ao viver oração, jejum e esmola, o cristão trilha um caminho de purificação interior, preparando-se para celebrar a Páscoa com um coração renovado, ressurgindo para uma vida nova em Cristo.
Sinais Litúrgicos e Práticas de Conversão
Na Quaresma, a Igreja usa o roxo como cor principal, lembrando penitência e recolhimento. É um tempo de preparação, marcado também pelo silêncio do “Glória” e do “Aleluia” nas missas, que só voltam na Páscoa.
As igrejas ficam mais simples, sem muitas flores ou enfeites, para favorecer o recolhimento interior. Há ainda a tradição de cobrir santos e crucifixos com véus roxos, prática que nem todos seguem, mas que ajuda a aumentar a expectativa pela Ressurreição. No fundo, cada detalhe da liturgia quaresmal funciona como uma pedagogia espiritual: educa os sentidos e o coração para viver o mistério pascal com mais profundidade.
A Quaresma é um tempo de olhar para dentro e buscar mudança de vida. São quarenta dias para rever nossa caminhada, reconhecer fraquezas e pedir perdão. A Confissão, feita com arrependimento sincero, é essencial nesse recomeço, pois nos abre à graça e ao perdão de Deus. A Eucaristia fortalece nossa união com Cristo e a oração nos mantém próximos d’Ele. É também momento de participar mais da Missa e praticar obras de misericórdia no dia a dia, seja com gestos simples de caridade ou atenção ao próximo.
O jejum e a penitência não são só renúncias externas, mas exercícios de paciência e domínio próprio, que nos ajudam a crescer espiritualmente. Viver bem a Quaresma pede decisão: organizar momentos de oração, escolher um jejum que realmente custe, praticar a esmola com generosidade e buscar a Confissão com arrependimento. No fim, tudo isso prepara o coração para celebrar a Páscoa renovado.
A Quaresma é mais que um período de práticas religiosas: é um convite à renovação. Cada gesto de oração, jejum, caridade e arrependimento nos aproxima de Cristo e nos prepara para viver a alegria da Ressurreição.
Que este tempo seja vivido com sinceridade e decisão, para que, ao chegar a Páscoa, possamos celebrar não apenas um rito, mas a verdadeira transformação de nossa vida em Cristo.













